Um pedido fechado hoje com um fornecedor no exterior pode chegar ao Brasil em 2027 sob uma realidade tributária diferente daquela considerada na negociação. Preço, prazo de produção, câmbio, frete e disponibilidade de caixa começam a ser definidos meses antes da nacionalização da mercadoria, enquanto parâmetros importantes do IBS e da CBS ainda estão em formação.
A questão está no centro da atuação do Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de São Paulo (Sindasp), filiado à Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), e da própria FecomercioSP na implementação da Reforma Tributária. As entidades vêm defendendo condições para que as empresas tenham tempo de adaptar sistemas, testar procedimentos e organizar as operações antes da entrada das mudanças. Em maio, o Sindasp propôs antecedência mínima de 90 dias para ferramentas de simulação da CBS e APIs relacionadas ao Portal Único. No mês seguinte, a FecomercioSP encaminhou, com os Sindicatos filiados, 25 sugestões de aprimoramento aos regulamentos do IBS e da CBS, incluindo o mesmo prazo mínimo para alterações técnicas em documentos fiscais eletrônicos.
O assunto ganhou urgência em agosto. Receita Federal e Secretaria de Comércio Exterior (Secex) disponibilizaram no ambiente de treinamento do Portal Único o Release Paraná RTC. Segundo a Notícia Siscomex Importação 083/2026, a Duimp passou a receber município e unidade federativa de destino por item e a utilizar essas informações para calcular e exibir IBS e CBS, ainda sem obrigatoriedade de recolhimento em 2026.
Sistema avança enquanto regras amadurecem
A tecnologia, portanto, começa a incorporar a nova tributação enquanto parâmetros importantes de 2027 ainda estão em definição. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) solicitou mais antecedência na fixação da alíquota da CBS para o próximo ano, diante dos efeitos da informação sobre orçamento, fluxo de caixa, preços, investimentos e adaptação dos sistemas empresariais.
Ao mesmo tempo, ganhou espaço no debate a estimativa de 27,91% utilizada pelo Comitê Gestor do IBS (CGIBS) em exercício metodológico de projeção. O porcentual, porém, não corresponde à alíquota oficialmente definida para 2027. Para o economista, despachante aduaneiro e diretor-secretário-adjunto do Sindasp, Marcelo de Castro, essa diferença exige cautela das empresas ao projetarem seus custos.
“Mais do que aguardar um número definitivo, o empresário pode começar a avaliar como diferentes hipóteses refletiriam em caixa, margens, preços e investimentos. Isso acontece porque uma empresa não importa uma alíquota média, mas produtos submetidos a classificações, destinos, finalidades, regimes e tratamentos tributários distintos”, avalia Castro.
A própria Duimp evidencia essa mudança ao levar o cálculo para o nível do item. Informações sobre produto, destino e tratamento tributário passam a integrar uma mesma infraestrutura, aumentando a importância da qualidade dos cadastros. Segundo Castro, uma inconsistência que antes poderia permanecer restrita a uma planilha ou etapa interna tende a ganhar mais alcance à medida que os dados são compartilhados e reutilizados pelos sistemas.
Prazo de adaptação entra na conta
É nesse ponto que a atuação conjunta do Sindasp e da FecomercioSP ganha relevância. O prazo mínimo de 90 dias defendido pelas entidades considera que uma alteração técnica não termina quando a especificação é publicada. Empresas e fornecedores ainda precisam ajustar ERPs e APIs, parametrizar sistemas, homologar soluções, realizar testes, corrigir falhas e treinar equipes.
O Ato Conjunto RFB/CGIBS 4/2026, publicado no fim de julho, organizou o cronograma de obrigatoriedade dos documentos fiscais eletrônicos vinculados ao IBS e à CBS e a previsão de disponibilização dos respectivos leiautes técnicos. As datas servem de referência para o planejamento de contribuintes e desenvolvedores, mas não eliminam a necessidade de preparação antecipada.
Segundo Castro, o impacto também chega à tesouraria. Questões como taxa de câmbio, momento do recolhimento, aproveitamento de créditos e tratamento de regimes especiais podem alterar a necessidade de capital mesmo quando não representam custo tributário definitivo. Em um exemplo apresentado pelo economista, sobre uma base mensal de importações de R$ 100 milhões, uma diferença de apenas 0,3 ponto porcentual entre cenários equivale a R$ 300 mil no mês e R$ 3,6 milhões em um ano.
Por isso, a preparação não deve ficar restrita ao setor fiscal ou à integração tecnológica. Compras, Comércio Exterior, Tecnologia, Financeiro e áreas responsáveis pelos cadastros precisam identificar as operações mais relevantes, revisar classificações e tratamentos, testar sistemas e projetar diferentes efeitos sobre o caixa.
Para o Sindasp e a FecomercioSP, garantir tempo para essa adaptação é parte essencial de uma transição mais segura. Afinal, quando as alíquotas definitivas chegarem, parte das importações de 2027 já estará contratada, em produção ou a caminho do País. O desafio é fazer com que as informações necessárias cheguem enquanto as empresas ainda têm espaço para transformar conhecimento em decisão.